Quer ser um líder? Aprenda com Angela Merkel

*Por Silvana Piñeiro Nogueira

 

Em meio ao caos mundial que vivemos por conta da pandemia do coronavírus, é praticamente impossível não fazer comparações entre as posturas e discursos, tanto de políticos quanto grandes empresários, mas também de pessoas comuns como eu ou você. Sabe-se que, diante de um perigo iminente, é normal que sentimentos e angústias guardadas a sete chaves venham à tona e se acentuem.

 

Muitos empresários tomam uma postura reativa, como se estivessem em posição fetal… Outros esbravejam. E há aqueles que perdem o controle totalmente, chegando à beira da insanidade mental. Como ponta do iceberg, a comunicação sofre as consequências desses destemperos. Sabemos que o funcionamento de uma companhia reflete muito o comportamento dos seus líderes e o mesmo acontece na política. Quanto mais calmo e sensato for o líder, mais o povo se sentirá seguro e confortável para seguí-lo.

 

Obviamente cada cultura tem a sua particularidade, o seu modus operandi. No Brasil, vemos diariamente políticos, e até empresários postando vídeos com opiniões e declarações polêmicas, tanto na imprensa quanto nas redes sociais. Umas até são tão mal explicadas que é necessário voltar atrás e eliminar o assunto da pauta.

Mas é sempre tempo de analisar e aprender novas lições. Recentemente, a chanceler alemã Angela Merkel, que evita a todo custo dar pronunciamentos oficiais na TV fora do obrigatório discurso de Ano Novo, tradicional naquele país, falou à nação em um tom firme, por um lado, mas empático por outro. Em 14 anos à frente do mais potente país da Europa, só o coronavírus teve a força para trazê-la para a frente das câmeras. O que podemos tirar de lição desta postura? E como os líderes empresariais podem aprimorar as suas comunicações a fim de mobilizar e engajar as equipes para trabalharem em uma mesma direção, ou seja, aquela que o líder determinar?

 

A chanceler falou aos seus cidadãos e se tornou um excelente exemplo de comunicação perfeita de liderança. Os métodos, dispositivos estilísticos e princípios que Merkel usou priorizaram a intenção clara, transparente e concisa do porquê das medidas tomadas pela Alemanha.

 

As pessoas só se engajam naquilo em que estão implicadas, principalmente quando são consideradas a solução para os problemas. Merkel usou essa tática para disseminar um único objetivo: ‘diminuir a propagação do vírus, estender a curva de infectados ao longo dos meses e, assim, ganhar tempo. Tempo para a pesquisa desenvolver uma droga, uma vacina e para que os doentes possam receber os melhores cuidados possíveis.’ A líder ainda abriu mão do meio retórico da repetição, ou seja, diga o que você quer dizer: Agora, o que é mais urgente para mim hoje: todas as medidas estatais falharam. Usaremos os meios mais eficazes para impedir que o vírus se espalhe rapidamente: nós mesmos.

 

Um discurso forte só trará resultados se for capaz de criar confiança. Para isso, é preciso uma linguagem e postura íntegras, empáticas e competentes. A integridade significa assumir e seguir seus valores. No caso de Merkel, não foram só palavras que transmitiram o seu valor, mas sim os sinais que ela enviou por meio de gestos e expressões faciais.

 

Já a empatia não significa apenas colocar-se no lugar do próximo, mas incluir-se como parte da equipe. “Eu sei o quão difícil é conseguir o que nos é pedido. Queremos estar próximos um do outro, especialmente em tempos de necessidade.” Evitar usar “vocês” e priorizar o “nós” é fundamental. No caso da chanceler, ela não se colocou acima das pessoas, mas incluiu-se na sociedade.

 

Adaptar a linguagem ao público também é uma estratégica empática. Usar exemplos reais e próximos faz com que o ouvinte se identifique e seja tocado pela mensagem: ‘Esses números [as mortes] não são simplesmente estatísticas abstratas, representam um pai ou avô, mãe ou avó, um parceiro. São pessoas. Quando ela se despediu, também usou palavras empáticas: “Cuide bem de si e de seus entes queridos”.

 

No entanto, empatia por empatia não é suficiente para conquistar confiança. Se as pessoas não acreditarem que o líder é competente para tomar as decisões, não confiarão nele. Uma forma eficaz de dar credibilidade é deixar claro que suas ações são embasadas em estudos, números e análises feitas por uma equipe competente. Ou seja, decisões importantes não podem ser comunicadas com se fossem tomadas individualmente ou baseadas em meras crenças pessoais, mas sim sustentadas por especialistas que conhecem o assunto.

 

Por fim, se você deseja conquistar pessoas, colegas, funcionários ou parceiros que confiem em você nesta ou nas próximas situações de crise, leve em consideração os princípios de comunicação de liderança, a fim de conquistar a confiança ao agir, decidir, comunicar e enviar sinais.

*Silvana Piñeiro Nogueira é jornalista com 25 anos de atuação como assessora de imprensa, mestre em Estudos Políticos pela Sorbonne e pós-graduada em Marketing pela FAE Business School. Mora na Alemanha e administra a Smartcom Inteligência em Comunicação, com sede em Curitiba, que há 10 anos atua na área de comunicação internacional B2B. Está em isolamento social há três semanas.

Estamos queimando

* Por Silvana Piñeiro Nogueira

 

Há alguns dias analiso as notícias sobre as questões ambientais no Brasil. Difícil de acreditar nas informações vindas tanto da imprensa brasileira quanto internacional. Os dados não batem, as informações são truncadas e fortemente influenciadas pela polarização que influenciam as questões políticas no mundo.

No entanto, o que me chamou atenção foram alguns comentários que afirmam que as queimadas na Amazônia não são uma questão política, mas sim ambiental. Ora, obviamente é uma questão ambiental, mas esbarra na imagem, nas atitudes e na importância que os políticos brasileiros dão para a nossa biodiversidade. Há motivos concretos e irrefutáveis para o mundo estar preocupado. A Amazônia é o nosso pulmão, não há no mundo local mais rico em termos de natureza. E ela está queimando como nunca esteve!

É certo que não é só a Amazônia que sofre com as queimadas. Satélites identificam pontos críticos na África, na Sibéria e em outras regiões do globo, mas então por que o Brasil é alvo de notícias e críticas mundiais. Bem, certamente pela magnitude da Floresta Amazônica, a riqueza maior do mundo e sua perda influenciaria o clima em toda a Terra. Mas não é apenas por isso.

Não é coincidência que esta tragédia veio à tona algumas semanas depois das polêmicas declarações do presidente brasileiro sobre a conduta europeia,  principalmente de países como a Alemanha, França e Noruega, estes mesmos que, possivelmente, vão nos ajudar a ‘salvar’ a floresta. Esses países realmente tiveram uma conduta ambiental que um dia não foi exemplar, mas que hoje oferecem tecnologia, know-how e engajamento de dar invejar a qualquer nação. Também não é coincidência que justamente agora, nós passamos pelo momento mais polarizado da política nacional, onde o principal objetivo é decapitar o inimigo: o governo! Custe o que custar.

A situação crítica de desmatamento da Amazônia não vem de hoje. Apesar do Fundo Amazônico enriquecer os cofres públicos para a preservação da floresta, ela nunca sofreu tanto quanto nas últimas duas décadas e essa informação já foi levantada lá no longínquo governo Temer, mas na época não era de interesse falar sobre o assunto, afinal a pauta naquele momento não era meio ambiente e sim Eleições e Lava-Jato.

Mas a Lava-Jato continua fazendo barulho, o que mudou agora na arena pública? A mudança não é de hoje, de uns anos para cá, a visão e o conceito de brasileiro mudou. Não somos mais aquele povo alegre e hospitaleiro, criativo e eficiente. Nos tornamos duvidosos, parciais, corruptos, coniventes com a cultura do “jeitinho brasileiro” que, agora, não é mais sinônimo de flexibilidade, mas carrega uma conotação negativa perante os olhos do mundo. Então, como confiar a essa gente instável e duvidosa a maior riqueza para a sobrevivência do mundo? Esta é a questão! O que diz o governo Bolsonaro não é errado, mas reforça essa fama distorcida e inconstante dos brasileiros. Além disso, o que os estrangeiros ouvem do Brasil só contribui para a construção de uma figura de governante radical que tenta a qualquer custo se aproximar, ou melhor, se igualar ao governo Trump. Além disso, o incêndio é criminoso. E isso dá medo!

A Amazônia é sim uma questão a ser tratada por especialistas e pela polícia, é preciso de uma força-tarefa urgente para resolver esta catástrofe ambiental, mas também é problema de cada brasileiro. A queimada reflete a nossa queimada enquanto Estado, enquanto povo e cultura. Estão queimando a nossa dignidade enquanto cidadãos.

Não temos mais credibilidade, não somos mais confiáveis, não temos mais graça. Façamos então uma análise mais ampla e aprofundada desse caso. Não se trata mais de uma floresta ou de quem desmata mais, também não é uma questão de ideologia política ou de populismo, é uma questão de consciência, de conduta, do que é realmente importante para um povo soberano e como queremos ser enxergados pelos outros povos. É mais que uma questão ambiental, é uma questão de imagem, de credibilidade. Nos resta responder à pergunta: qual imagem queremos deixar para os nossos filhos?

 

* Silvana Piñeiro Nogueira é empresária, jornalista, especialista em Marketing e mestre em Ciências Políticas pela Universidade Sorbonne – Panthéon-Assas II.

Fraude Alimentar – Uma realidade no setor industrial

Recentemente temos ouvido falar sobre um assunto muito importante, tanto para o consumidor quanto para as indústrias produtoras de alimentos: a Fraude em Alimentos ou Food Fraud. O tema é tão importante que foi incluído nas normas de qualidade e segurança de alimentos.

A IFS FOOD, versão 6.1, de novembro de 2017, norma reconhecida mundialmente na área de qualidade e segurança de alimentos, define fraude em alimentos como “a substituição, adulteração ou falsificação deliberada de alimentos, matérias-primas, ingredientes, ou embalagens ou a alteração deliberada da rotulagem em produtos colocados no mercado com a finalidade de ganho econômico. Esta definição também se aplica aos processamentos terceirizados”. Em suma, além de serem consideradas crime, as fraudes em alimentos são atos ilícitos que sempre envolverão vantagem financeira, podendo (ou não) afetar a saúde do consumidor.

O assunto não é novo e podemos citar casos bem antigos pelo mundo todo, como a adição de dietileno Glicol (DEG) para aumentar o dulçor em vinhos brancos (Áustria, 1985), a adição de melamina em produtos lácteos para aumentar o teor de nitrogênio, resultando em um falso aumento do teor de proteínas (China, 2008), adição de carne de cavalo em hambúrguer, onde a rotulagem descrevia o produto como 100% carne bovina (Inglaterra, 2013) e recentemente no Brasil, entre 2015 e 2017, quando tivemos as operações “leite compensado”, na qual a empresa foi acusada de adulterar leite impróprio para consumo com ácido, com objetivo de reduzir a contaminação microbiológica, e também a operação “carne fraca”, em que frigoríficos foram acusados de adulterar as carnes para mercado interno e externo e, com isso, foi exposto o esquema de corrupção em órgãos fiscalizadores.

Outros tipos de fraudes alimentares que ocorrem sempre visando o ganho econômico são a falsificação, cópia de nome de marca, conceito de embalagem, formulação, substituição de um ingrediente de alto custo por outro de menor valor, a adição de cobertura sabor chocolate no lugar de chocolate ao leite (quando a informação na embalagem é de que o produto contém chocolate ao leite), a diluição, quando se mistura um ingrediente líquido de menor valor na fórmula com um ingrediente de alto valor, a fraude em azeite de oliva com adição de óleo de soja parcialmente em sua fórmula, a substituição ou adulteração (processo de adicionar materiais desconhecidos e não declarados a produtos alimentícios, a fim de melhorar seus atributos de qualidade, como o caso da adição de melamina no leite), rotulagem ou etiquetagem incorreta com a inclusão de falsas alegações, adulteração de lote e validade, ocultação de ingredientes presentes na fórmula na lista de ingredientes da embalagem, ocultação da presença de alergênicos, ou peso líquido informado menor do que o declarado no rótulo.

A maioria das fraudes em alimentos só pode ser comprovada por análises laboratoriais, mas o consumidor pode estar atento a alguns detalhes na hora da compra, como, por exemplo, verificar a data de validade do produto, observando se há sinais de adulteração, olhar outros produtos da mesma marca e comparar se a marcação de lote e validade está coerente, verificar as condições da embalagem e não comprar caso ela esteja violada, ler o rótulo, e, se tiver dificuldades, entrar em contato com o SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa.

Outra dica importante é prestar atenção à aparência, coloração e ao cheiro do alimento. Se desconfiar que ele não está apto para o consumo, entre em contato com o SAC da marca para informar o problema, pois é imprescindível que a empresa esteja ciente de que pode haver um problema com seus produtos. O contato com o consumidor é extremamente importante, visto que ajuda a empresa a melhorar seus processos de controle, garantindo não só a qualidade, mas também a segurança de seus produtos. Se a empresa for idônea, tentará descobrir junto ao consumidor a origem da fraude. No entanto, se a resposta do SAC não for satisfatória e o consumidor se sentir lesado, ele deve entrar em contato com a Vigilância Sanitária da sua cidade e informar o ocorrido, lembrando, sempre, de guardar o cupom fiscal e o produto, mesmo que ele esteja danificado, pois esta será a prova da reclamação.

É importante ressaltar que não é somente o consumidor que sofre com a fraude em alimentos. A indústria também pode sofrer fraude se não tiver um controle rigoroso na escolha de seus fornecedores. Por esse motivo, existe um programa dentro do sistema de qualidade e segurança de alimentos que deve ser implantado nas indústrias. Esse programa é chamado de “Food Fraud” ou “Fraude em Alimentos”, que avalia os tipos de fraude que podem acontecer dentro do processo produtivo ou do produto, quais os riscos e ameaças, qual a vulnerabilidade, como está o acesso ao produto, qual a origem das matérias-primas, embalagens e insumos, qual o tipo de vigilância deverá ser efetuada para identificar a probabilidade de fraude de produto e, assim, tentar evitá-la. As medidas de controle que devem ser postas em prática podem variar de acordo com a natureza da fraude, metodologia de detecção, tipo de vigilância e origem da matéria-prima, ingrediente ou material de embalagem. Treinamentos para os colaboradores das áreas de produção, qualidade e até mesmo do setor de compras também fazem parte do plano de mitigação de fraudes em alimentos.

Evite as “fake news”. Antes de repassar conteúdos sobre fraudes em alimentos verifique se a fonte é idônea.

*Patrícia Amarante é engenheira de alimentos e assessora técnica na área de alimentos do Sincabima– Sindicato das Indústrias de Cacau e Balas, Massas Alimentícias e Biscoitos, de Doces e Conservas Alimentícias do Paraná.