Estamos queimando

* Por Silvana Piñeiro Nogueira

 

Há alguns dias analiso as notícias sobre as questões ambientais no Brasil. Difícil de acreditar nas informações vindas tanto da imprensa brasileira quanto internacional. Os dados não batem, as informações são truncadas e fortemente influenciadas pela polarização que influenciam as questões políticas no mundo.

No entanto, o que me chamou atenção foram alguns comentários que afirmam que as queimadas na Amazônia não são uma questão política, mas sim ambiental. Ora, obviamente é uma questão ambiental, mas esbarra na imagem, nas atitudes e na importância que os políticos brasileiros dão para a nossa biodiversidade. Há motivos concretos e irrefutáveis para o mundo estar preocupado. A Amazônia é o nosso pulmão, não há no mundo local mais rico em termos de natureza. E ela está queimando como nunca esteve!

É certo que não é só a Amazônia que sofre com as queimadas. Satélites identificam pontos críticos na África, na Sibéria e em outras regiões do globo, mas então por que o Brasil é alvo de notícias e críticas mundiais. Bem, certamente pela magnitude da Floresta Amazônica, a riqueza maior do mundo e sua perda influenciaria o clima em toda a Terra. Mas não é apenas por isso.

Não é coincidência que esta tragédia veio à tona algumas semanas depois das polêmicas declarações do presidente brasileiro sobre a conduta europeia,  principalmente de países como a Alemanha, França e Noruega, estes mesmos que, possivelmente, vão nos ajudar a ‘salvar’ a floresta. Esses países realmente tiveram uma conduta ambiental que um dia não foi exemplar, mas que hoje oferecem tecnologia, know-how e engajamento de dar invejar a qualquer nação. Também não é coincidência que justamente agora, nós passamos pelo momento mais polarizado da política nacional, onde o principal objetivo é decapitar o inimigo: o governo! Custe o que custar.

A situação crítica de desmatamento da Amazônia não vem de hoje. Apesar do Fundo Amazônico enriquecer os cofres públicos para a preservação da floresta, ela nunca sofreu tanto quanto nas últimas duas décadas e essa informação já foi levantada lá no longínquo governo Temer, mas na época não era de interesse falar sobre o assunto, afinal a pauta naquele momento não era meio ambiente e sim Eleições e Lava-Jato.

Mas a Lava-Jato continua fazendo barulho, o que mudou agora na arena pública? A mudança não é de hoje, de uns anos para cá, a visão e o conceito de brasileiro mudou. Não somos mais aquele povo alegre e hospitaleiro, criativo e eficiente. Nos tornamos duvidosos, parciais, corruptos, coniventes com a cultura do “jeitinho brasileiro” que, agora, não é mais sinônimo de flexibilidade, mas carrega uma conotação negativa perante os olhos do mundo. Então, como confiar a essa gente instável e duvidosa a maior riqueza para a sobrevivência do mundo? Esta é a questão! O que diz o governo Bolsonaro não é errado, mas reforça essa fama distorcida e inconstante dos brasileiros. Além disso, o que os estrangeiros ouvem do Brasil só contribui para a construção de uma figura de governante radical que tenta a qualquer custo se aproximar, ou melhor, se igualar ao governo Trump. Além disso, o incêndio é criminoso. E isso dá medo!

A Amazônia é sim uma questão a ser tratada por especialistas e pela polícia, é preciso de uma força-tarefa urgente para resolver esta catástrofe ambiental, mas também é problema de cada brasileiro. A queimada reflete a nossa queimada enquanto Estado, enquanto povo e cultura. Estão queimando a nossa dignidade enquanto cidadãos.

Não temos mais credibilidade, não somos mais confiáveis, não temos mais graça. Façamos então uma análise mais ampla e aprofundada desse caso. Não se trata mais de uma floresta ou de quem desmata mais, também não é uma questão de ideologia política ou de populismo, é uma questão de consciência, de conduta, do que é realmente importante para um povo soberano e como queremos ser enxergados pelos outros povos. É mais que uma questão ambiental, é uma questão de imagem, de credibilidade. Nos resta responder à pergunta: qual imagem queremos deixar para os nossos filhos?

 

* Silvana Piñeiro Nogueira é empresária, jornalista, especialista em Marketing e mestre em Ciências Políticas pela Universidade Sorbonne – Panthéon-Assas II.